MPF afirma que vacinação de indígenas fracassa em MS

Segundo o órgão, unidades de saúde devem buscar indígenas que não tomaram a segunda dose da vacina. Gestores podem ser responsabilizados pela omissão

| MIDIAMAX


Getúlio Juca, rezador da Aldeia Jaguapiru, na Reserva Federal de Dourados - Marcos Morandi

Para garantir a vacinação de indígenas nas aldeias de Mato Grosso do Sul, o MPF (Ministério Público Federal) quer as equipes de saúde municipais, estaduais e do DSEI/MS (Distrito Sanitário Especial Indígena de Mato Grosso do Sul) iniciem buscas ativas dos indígenas que não tomaram as segundas doses.

Segundo o MPF, as ações devem ser feitas   por intermédio de equipes móveis nos territórios de origem e de preferência fora dos horários de trabalho dos indígenas. As medidas fazem parte de Recomendação conjunta expedida pelo Ministério Público Federal, Defensoria Pública da União e Defensoria Pública do Estado.

Conforme o órgão, as Secretarias municipais de Saúde dos Municípios de Amambai, Aral Moreira, Coronel Sapucaia, Japorã, Ponta Porã, Anastácio, Aquidauana, Nioaque, Porto Murtinho, Maracaju, Douradina, Dourados, Rio Brilhante, Iguatemi e Miranda, além da Secretaria de Saúde de Mato Grosso do Sul e o DSEI/MS já foram comunicadas.

O pedido baseia-se em ofício da própria DSEI/MS, que informa as doses D1 e D2 aplicadas aos indígenas e inclui tabela que comprova baixos índices da 2ª dose entre indígenas em alguns municípios e de acordo com o MPF, a omissão na adoção das recomendações  pode implicar em medidas administrativas e ações judiciais contra os gestores públicos que se omitirem.

‘Marca da Besta’, do ‘Anticristo’

Em março deste ano, o Midiamax já alertava para as dificuldades de vacinação nas aldeias de MS, principalmente em Dourados. Entre os ‘fakes’  que sespalhavam como se fossem rastilhos de pólvoras, um já éra bastante conhecido na comunidade. Diz a lenda, que quem tomar a vacina vai virar jacaré.

“Essa é uma estória que vem sendo contada há algum tempo e que por mais que pareça uma brincadeira de criança, acabou assustando muitos adultos', afirmou uma professora da Aldeia Jaguapiru.

Para não ser hostilizada, a educadora ouvida pelo Midiamax, que prefere ter a identidade preservada diz ainda que se a estória do jacaré, apesar de absurda já assusta, o terror espalhado por determinados grupos, formados na maioria por fanáticos que ainda acreditam que a doença não é real, causa pânico ainda maior.

“Muita gente aqui nas aldeias ficou apavorada depois de ouvir que a vacina é a representação do demônio. Esse tipo de mentira acaba influenciando negativamente e para alguns, diante da pressão, acaba virando verdade', diz a professora.

Em conversa com outros moradores da Aldeia Bororó, que também faz parte da Reserva Federal de Dourados, a reportagem do Midiamax constatou que a fonte dos boatos não está vinculada somente aos grupos evangélicos. “Faço parte de uma denominação evangélica onde o nosso pastor já está imunizado', diz outra educadora, ressaltando que todos fiéis foram orientados a tomar a vacina.

Na avaliação do pesquisador da UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados), Neimar Machado de Sousa, a baixa adesão dos indígenas à vacinação está relacionada à vários fatores. Segundo ele, o governo não estava suficientemente preparado para uma vacinação em massa em tão pouco tempo.

Além disso, de acordo com o professor, no contexto da falta de campanhas mais objetivas e esclarecedoras, muitos boatos se espalharam nas aldeias e foram absorvidos por um grande número de pessoas. Estas notícias falsas sobre a vacina propagaram-se bastante entre os evangélicos, bastante numerosos nas aldeias, uma delas de que a vacina seria a ‘Marca da Besta’, do ‘Anticristo’.

Cabeças envenenadas

Se a vacina é o remédio que pode combater a doença, a cartilha é a esperança para restaurar a confiança na ciência, que além de rejeitada por fanáticos negacionistas, é disseminada como um mal que assombra culturas ancestrais.

“Estamos fase de finalização desse material e acreditamos que em breve ele estará nas mãos dos moradores da reserva. Essa cartilha demandou, além de pesquisas exaustivas, esforço e amor ao próximo', relata o professor da UFGD.

Além dele, que assina o projeto gráfico e também faz parte da organização e edição, a publicação envolveu Leninha Hilton (texto, ilustração, revisão e organização e edição), e Zenilton Fernandes (texto, organização e edição), Nilva da Silva (revisão), Christiane Aedo (revisão), Teodora de Souza (organização e edição) e Veronice Lovato Rossato (organização e edição).



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